FUSO 2008
28 JUL > 1 AGO
       

 

                     
         
                     
         
                     
         
                     
         
                     
         
                     
         
                     
         
                     
             
 
 
 
eric pellet
ADMOSH
   
    2004, 6’ (excerto)
 

“O nosso trabalho começa com o rosto humano”, teorizava já há algum tempo Ingmar Bergman. Cinema e rosto, uma experiência do rosto provocada por uma epifania da imagem, eis do que se trata em Admosh, isto é, conseguir a proximidade do rosto graças à matéria cinematográfica, encara-lo pela via da materialidade da imagem-luz, até ao ponto limite onde essa proximidade altera a percepção.
Os rostos filmados são de tchetchenos, refugiados políticos em França. Alguns deles tem o nome de Adam. Adam tem também nesta língua o significado de “Homem” e Admosh o seu plural significa ao mesmo tempo, os homens, o povo, a humanidade. No momento em que esse povo sofre um lento genocídio que se arrasta numa guerra sem fim é urgente dar de novo um rosto a este povo sem imagem.
A chama das vidas, dos rostos, vibra sobre um dispositivo cruel, uma brancura letal. Aqui, o negro protege-os, o branco ameaça-os. Sinal de um combate entre o excesso de luz e profundas trevas, a luz é aqui fulcral, ela cria a dramaturgia, ela adquire o valor de tragédia. Neste limbo, o não-rosto pode sempre aflorar debaixo do rosto. É necessário depura-lo, des-mascara-lo, torna-lo imaterial para melhor nos deixarmos penetrar por ele. Uma morada silenciosa, uma apóstrofe sem objecto, pesam sobre este olhar-camara. A boca é muda, só o rosto fala. Emerge uma tensão entre a vulnerabilidade explícita, um desnudamento e a expressão de uma resistência, a emergência de algo indestrutível. Este frente a frente, esta frontalidade radical arrasta uma responsabilidade face à autoridade.
Admosh trabalha a irradiação com um princípio de vida, procura um ritmo, uma escansão aquilo que encarna o frémito da vida. Este retrato mudo do povo tchetcheno exilado, o seu rosto visível, lembra-nos que “ser, é ser visto”.