FUSO 2026 – 25 a 29 de Agosto
28 Agosto, 22h00
Palácio Sinel de Cordes – Trienal de Arquitetura de Lisboa
This Must Be The Place. Corpo, território e ecologias dissidentes
João Mourão e Luis Silva
Entre cidades, paisagens vulcânicas, campos agrícolas e florestas, o programa reúne quatro obras que exploram as relações entre corpo, território e imaginação política a partir de perspectivas queer, decoloniais e especulativas. Longe de conceber o território como um espaço neutro, os filmes aqui apresentados propõem-no como um campo vivo, atravessado por histórias coloniais, regimes de trabalho, deslocações forçadas e formas de pertença em constante mutação.
Neste ciclo, o corpo surge como lugar de inscrição dessas tensões, mas também como dispositivo de transformação. Em Migranta, de Manauara Clandestina, a experiência da migração é abordada como condição simultaneamente geográfica, política e existencial. Através da combinação de performance, arquivo e testemunho, o filme constrói uma cartografia sensível de vidas em trânsito, onde identidades dissidentes atravessam fronteiras e reinventam modos de habitar o mundo.
Essa articulação entre corpo e território ressurge em In Tierra Retumbante, de Elyla, onde o vulcão Masaya — “montanha que arde” — se torna figura de memória geológica e cultural. Ao revisitar o clássico El Güegüense a partir de uma perspetiva queer, a obra reinscreve tradições populares, confrontando as persistências da colonialidade e afirmando o potencial dos corpos como espaços de resistência e reimaginação histórica.
Num registo distinto, YWY, a andróide, de Isadora Neves Marques, desloca esta reflexão para um cenário agro-tecnológico. Num campo de milho geneticamente modificado, uma andróide indígena confronta questões de reprodução, linguagem e direitos do corpo. O filme propõe uma ecologia especulativa onde as fronteiras entre humano, tecnologia e vegetal se tornam instáveis, revelando os limites da perceção e os regimes de poder inscritos na biotecnologia contemporânea.
Por fim, na série Pteridophilia, Zheng Bo imagina formas de intimidade radical entre humanos e plantas. Ao explorar relações de desejo, cuidado e interdependência entre espécies, a obra desafia a separação moderna entre natureza e cultura, propondo uma ecologia do sensível que expande os limites do humano e convoca outras formas de coexistência.
Colocadas em diálogo, estas obras desenham um percurso que se move das fronteiras humanas para ecologias mais amplas de relação. Entre memória, deslocação e imaginação especulativa, This Must Be The Place convida-nos a pensar o território não apenas como espaço geográfico, mas como um campo de forças onde se ensaiam práticas de resistência e se esboçam outras formas de vida comum.
(João Mourão e Luis Silva)
In Tierra Retumbante – Elyla
Inspirada pelo vulcão Masaya — ou Popogatepe, “montanha que arde” na língua mangue — a obra evoca a ligação profunda entre a terra e as culturas vivas da Nicarágua. Entre vertigem, dança e memória, Elyla revisita o clássico teatral do século XVI El Güegüense, reinterpretando os seus figurinos a partir de uma perspetiva cochón informada pela história LGBTQ+ do país. O filme reflete sobre como corpos, territórios e tradições carregam as marcas da colonialidade, mas também podem tornar-se espaços de resistência e transformação.
Migranta – Manauara Clandestina
Migranta explora experiências de deslocação, identidade e pertença a partir da perspetiva de corpos em trânsito. Combinando performance, registos documentais e materiais de arquivo, o filme aborda a migração não apenas como movimento geográfico, mas também como condição política e existencial. Entre memória e testemunho, a obra revela realidades sociais e afetivas frequentemente invisibilizadas, refletindo sobre as formas como sujeitos dissidentes atravessam fronteiras e reinventam modos de habitar o território.
Pteridophilia I – V – Zheng Bo
Na série Pteridophilia, Zheng Bo explora relações de intimidade entre corpos humanos e plantas, questionando a separação moderna entre natureza e cultura. Filmadas em paisagens naturais, estas cenas imaginam formas de desejo, cuidado e interdependência entre espécies. A obra propõe uma reflexão sensorial sobre ecologia, sexualidade e coexistência, sugerindo possibilidades de relação com o mundo vegetal que desafiam normas culturais e expandem os limites do humano.
YWY, a androide – Isadora Neves Marques
Num presente-futuro situado no interior agrícola do Brasil, uma androide indígena conversa com um campo de milho geneticamente modificado. Num momento de intimidade, emergem questões sobre direitos do corpo, infertilidade, trabalho e monocultura. Incapaz de ouvir a voz das plantas, o espectador percebe o diálogo como um estranho monólogo. Inspirado na escrita de João Guimarães Rosa, o filme propõe uma reflexão sobre linguagem, consciência e formas de comunicação que ultrapassam os limites da perceção humana.
FUSO 2026 – August 25th to 29th
August 28th, 10pm
Palácio Sinel de Cordes – Trienal de Arquitetura de Lisboa
This Must Be the Place. Body, Territory and Dissident Ecologies
João Mourão e Luis Silva
Between cities, volcanic landscapes, agricultural fields and forests, the programme gathers together four pieces that explore the relationships between body, terrain and political imagination from queer, decoloniality and speculative perspectives. Far from conceiving of territory as a neutral space, the films being shown here suggest it as a living field, traversing colonial histories, work regimes, forced displacement and ways of belonging in constant mutation.
In this cycle, the body emerges as a place on which those tensions are inscribed, but also as a tool for transformation. In Migranta, by Manauara Clandestina, the experience of migration is approached as a simultaneously geographic, political and existential condition. Through a combination of performance, archive and testimony, the film builds a sensitive cartography of lives in transit, where dissident identities cross borders and reinvent ways of inhabiting the world.
This connection between body and territory resurfaces in In Tierra Retumbante, by Elyla, in which the Masaya volcano — “mountain on fire” — becomes a figure of geological and cultural memory. In revisiting the classic El Güegüense from a queer perspective, the work reinscribes popular traditions, confronting the persistence of coloniality and affirming the potential of bodies as spaces of resistance and historical reimagination.
In a different manner, YWY, a andróide, by Isadora Neves Marques, transfers this reflection to an agrotechnical setting. In a genetically modified corn field, an indigenous android engages in questions of reproduction, language and bodily autonomy. The film proposes a speculative ecology in which the borders between human, technological and vegetable become unstable, revealing the limits of perception and of the regimes of power inscribed into contemporary biotechnology.
And finally, in the series Pteridophilia, Zheng Bo imagines forms of radical intimacy between humans and plants. By exploring relationships of desire, caring and interdependence between species, the work challenges the modern separation of nature and culture, proposing an ecology of the sensitive, which expands the limits of the human and invokes other forms of co-existence.
When grouped together in dialogue, these works design a path that moves from human limits to broader ecologies of relationship. Between memory, displacement and speculative imagination, This Must Be The Place invites us to think of territory as not only a geographical space, but also a field of forces where resistance practices are rehearsed and other forms of life in common are traced.
(João Mourão e Luis Silva)
In Tierra Retumbante – Elyla
Inspired by the Masaya volcano — or Popogatepe, “mountain on fire”, in the Mangue language — this work evokes the deep connection between the Earth and the living cultures of Nicaragua. Between dizziness, dance and memory, Elyla revisits the classic 16th century play El Güegüense, reinterpreting its costumes based on a cochón based on the LGBTQ+ history of the country. The film reflects on how bodies, territories and traditions carry the marks of coloniality, but can also become spaces of resistance and transformation.
Migranta – Manauara Clandestina
Migranta explores experiences of displacement, identity and belonging from the perspective of bodies in motion. Combining performance, documentary records, and archival material, the film addresses migration as not only a geographic movement, but also a political and existential condition. Between memory and testimony, the work reveals social and emotional realities which are frequently made invisible, reflecting on the ways in which dissident subjects cross borders and reinvent practices of inhabiting territory.
Pteridophilia I – V – Zheng Bo
In the series Pteridophilia, Zheng Bo explores intimate relationships between human bodies and plants, questioning modern life´s separation between nature and culture. These scenes, filmed in natural landscapes, imagine types of desire, caring and interdependence between species. The piece proposes a sensorial reflection on ecology, sexuality and co-existence, suggesting possibilities for relationship with the plant world, which defy cultural norms and expand human limitations.
YWY, the android – Isadora Neves Marques
In a future-present located in the agricultural countryside of Brazil, an indigenous android chats with a genetically modified corn field. In a moment of intimacy, questions arise about bodily autonomy, infertility, labour and monoculture. Because of their inability to hear the voice of the plants, the spectator perceives the dialogue as a strange monologue. This film is inspired by the writings of João Guimarães Rosa, and proposes a contemplation of language, conscience and ways of communicating which transcend the limitations of human perception.
Last Updated on Julho 18, 2026 by duplacena











